Sunday, August 21, 2011

127 Horas, O Livro

Depois de encher o saco de todo mundo que eu conheço para que assistissem ao filme, finalmente achei a versão pocketbook (aqueles de papel jornal no estilo penguinclassics... Adoro!) do livro em inglês. Melhor ainda – e é o que se espera, mas nesse país não se espera porque expectativa é ingenuidade - por um preço que faz sentido no meu universo.

Comecei essa semana e li um terço, estou na página 141.

ESTOU ADORANDO.

Talvez eu escreva mais sobre ele mais para frente, mas sinto que tenho que registrar que realmente estou curtindo o livro, coisa ao mesmo tempo freqüente, porque há muitos livros que eu amei ler; e rara, porque há muitos livros que eu desisti porque não seguraram a minha atenção ou porque achei um lixo (curioso... os ‘lixo’ eu costumo terminar, sabendo que é um lixo, ou porque foi leitura de pesquisa de tema, ou porque é meu lado pop dominando).

Tá, todo mundo sabe a história. O montanhista que fica com a mão presa no Parque Nacional de Canyonlands que, após tentativas frustradas de se soltar resolve amputar o braço e sobrevive à experiência. Okay, é supreendente, isso é inquestionável. Mas tem uma coisa nessa história toda que realmente me pega.

Esse episódio da vida do Aron Ralston é uma experiência metafórica, representativa. Ele começa de um jeito, – arriscado - em que pode obter tanto o sucesso quanto o fracasso. Ele termina o que se propôs a fazer naquele fim de semana, mas é OBRIGADO a deixar uma parte de si para trás. Não é mais o mesmo Aron, e, mesmo querendo, não pode ser. Foi o preço pelo milagre da vida. É disso o que ele é capaz. É assim que ele ama a vida dele. Mas teve que perder uma mão e sentir uma dor traumatizante para descobrir. Ele achava que ia sair ileso, buscava o sucesso de sair vivo (não estou falando desse passeio, mas da vida que ele escolheu: deixar a Intel e virar um montanhista solitário pura e simplesmente), mais uma vitória interna para elevar-se a si mesmo, mas teve um ponto de virada aí.

É isso que eu acho genial. O momento que temos que tomar a decisão. Não dá para esperar; não dá para errar; não dá para voltar. Tem que ser radical.

Alguns vivem a vida inteira no meio. Uns vivem pouco. Outros vivem muito. Uns vivem modestamente. Outros, intensamente. Uns passam sem refletir. Outros vivem cada momento conscientemente.

Essa busca de tantas pessoas que conheci – eu inclusa – por uma vida que valha a pena. A fuga da mesmice. A classe média estudada... Nada é 100% fácil, mas para quem o cromossomo aventureiro e arisco não se manifestou e é relativamente bem nascido (pode estudar e ter alguns luxos extras, não precisa ser classe AA), a vida PODE ser relativamente fácil. Tem gente que não tem o luxo de escolher. Mas alguém criou essa possibilidade para nós, e quem criou espera que a gente escolha o que é fácil. Mas expectativa é ingenuidade. Nada é garantia. Se a Vida fosse isso (segurança, calmaria e planejamento), eu não ia conhecer nem ter conhecido tanto doido vagando pelo mundo, escolhendo o desconforto, bolso apertado, noites maldormidas e roupas velhas só para ter um vislumbre, pelo menos, - uma introdução - do planeta em que vivemos e seus habitantes antes (ou depois) de se sentar num escritório para, nas palavras de Mark Renton:

“Choose Life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance. Choose fixed interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisurewear and matching luggage. Choose a three-piece suit on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who the fuck you are on Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pissing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourselves. Choose your future. Choose life...”*
*protagonista de Trainspotting, um filme must-see cult da década de 90, não por acaso também dirigido por Danny Boyle.

A questão que todos nós, os ‘loucos’, - que nos achamos muito mais sãos do que os que não são como nós - nos fazemos, é:

“But why would I want to do a thing like that?”

E muitos de nós achamos que vamos achar a resposta viajando pelo mundo. Se não pensamos isso, estamos certos de que, seguindo nosso planejamento (somos geniais), vamos fazer essa tal viagem dos sonhos e sair ilesos. Que depois disso vai ser fácil sentar no tal escritório e passar anos colocando dinheiro mensalmente na renda fixa sem se coçar. Você não vai mais querer jogar tudo pro ar porque você já fez a tal viagem dos sonhos.

SERÁ?!

Não sei.

Tem outras questões, que são mais ou menos as mesmas. Eu estou gostando do livro porque eu me identifico com uma certa forma de pensar do Aron, e tenho certeza que esse pessoal solo com quem cruzei em mochilões também se identifica. A questão da experiência solo, da identidade que formamos, do que vira só nosso e ninguém mais nunca jamais poderá partilhar. Há coisas em mim que nunca, ninguém vai poder compreender da forma que eu compreendo. Isso vale para toda a humanidade, mas existem perfis. Algo no meu histórico parece sugerir que um certo lado meu é perfil de minoria.

Mas o Aron me entende. E o livro dele é um best seller. Alguém mais compreendeu. São outros desdobramentos, mas o sentimento é comum. Quando leio um livro e me identifico com o sentimento dessa forma, sinto uma emoção indescritivelmente consoladora. Deve ser o trauma de patinho feio, medo de ser internamente sozinha...

Fiquei emocionada. Não foi à toa que gostei do filme. Sabia que tinha algo por trás. Estava certa.

“It doesn’t have to be fun to be fun. Precisely.” (pg 110)

“In the willow thickets of Mount Evans’s west bowl, I almost stepped on a snow-white ptarmigan that cooed and hopped out of my way at the last instant. Bending down to the bird, I fell into a trance in its ink-drop eyes. The universe expanded; neither of us moved. I felt a connection with that little puff of feathers on its matching snow pillow that seemed to surpass my bond with my own species. With our coexistence in the wintry landscape, we shared more that I did with the other humans who would never journey into this world. I took a picture to show my friends, but despite my explanation, they saw only the ptarmigan, not the connection.
These places, and the experiences I had in them, were mine and mine alone. The senses of solitude, ownership, and place that I felt on these trips were creating a private world that, by definition, was impossible to share. Nevertheless, I tried. I took photographs and posted online albums of my trips (…) To me, it was the experience of taking the picture.
(…)
The further along I got with my solo winter fourteener project, the larger this private world grew, and the more it intertwined with my sense of self. Climbing fourteeners in the winter by myself wasn’t just something I did; it became who I was. I didn’t hold any delusions about the difficulty of the project relative to world-class climbing routes, or compare myself with elite alpinists, but each time I scaled another high peak, I explored and developed another part of me” (pgs 111, 112)

O outro lado (quando a situação começa a ficar mais crítica):

“Without you coming along and pulling it, it would still be stuck where it had been for who knows how long. You did this, Aron. You created it.
(…)
It’s not that you’re getting what you deserve – you’re getting what you wanted.
(…)
I don’t fully understand why, but little by little I get that somehow I’ve wanted something like this to happen.” pg 126

“What kind of energy do you think you’ll find down there?” pg 127

É tudo ou nada.

Não é a experiência do Aron, mas o que ela significa para todos nós que ficamos fascinados com essa história...

E não tem resposta.

0 comments: