Sunday, January 01, 2012

FELIZ 2012!

Minha mesa está uma bagunça. Estou com um mega monitor de muitas polegadas embaixo dela que deveria ter sido instalado há mais ou menos um mês, uma pendência a ser realizada essa semana. Tantos dariam tanto por ele, e eu enrolando por preguiça e falta de tempo (Será que eu acredito na falta de tempo ou na preguiça? Quando se trata de mim e o que eu acho de mim mesma, nunca sei.). Tenho coisas para finalizar e entregar, e não quero usar meu tempo produtivo e a pouca paciência diária que me foi concedia pelo alter ego onisciente que a princípio é meu porque vem do meu universo interior mas cuja origem original é desconhecida durante a minha jornada de vida nessa dimensão matrix carpe-diem para mudar minha mesa antes dessa entrega.

Olha como eu sou um exemplo de home office: estou com dois computadores ligados a duas extensões frágeis onde também está ligado um mini-ventilador Arno com a parte protetora se desgrudando que eu coloco instavelmente sobre a minha cama para ventilar na minha nuca quando está calor, três HDs externos e uma lâmpada que tem que dar uma batidinha para ligar. Uma das extensões está ligada na tomada embaixo da minha mesa. A outra, mais frágil, faz um passeio quebrado pela extensão do meu quarto até a porta, por onde se alguém chegar chegando e, sem olhar para o chão, seguir em minha direção sem raciocinar, vai dar uma tropeçadinha trágica em câmera lenta, me tirar do meu mundo de auto-flagelo provocando o meu feedback com uma virada de pescoço irada e conseguir causar a minha fúria e implodir a irracionalidade do meu alter ego. Isso porque nesse emaranhado externo de fios entre o meu pé direito e uma cadeira da sala que eu uso como mesa há meses, há uma tensão e fragilidade energética em que que, se você chutar os fios, mexer a cadeira ou assoprar, tudo faz ‘fiiiiiu...’ e desliga. É o limite. Se a probabilidade dessa tragédia acontecer fosse baixa ia estar tudo bem, mas meu alter ego potencializa a minha dor existencial criando toda essa complexidade num ambiente físico em que eu sou uma mulher de 28 anos que mora com os pais numa família em que privacidade e individualismo são sinônimos de egoísmo e maldade natural. Essa metáfora da minha vida que rodeia o meu ar cotidiano e gritantemente pede pelo meu socorro ao se multiplicar sem planejamento sob a minha coordenação a cada manhã, tarde e noite tem se desenvolvido nos últimos três anos SEM ESTABILIZADOR.

A pergunta que não quer calar é: qual é o meu problema?

Pôrra, né?

Sim, pôrra.

Na verdade, quais são os meus vários problemas? Na verdade, porque eu não consigo resolver meus vários problemas? Na verdade, tudo se resolve com dinheiro na hora certa, e a hora certa mental passou, mas a vida não acompanha. Portanto, todos sabemos como resolver o problema, mas somos incapazes de resolvê-lo no momento e a solução é sobreviver ao(s) problema(s) e melhorar de vida, que é um conceito genérico que corresponde à resolução de 2012, que é a mesma resolução de anos anteriores, mas não quer dizer que não nos desenvolvemos nesse meio tempo. Eu já morei sozinha e sei que toda a ansiedade familiar e a auto-estima machucada vai se resolver quando eu tiver mais segurança, então pelo menos eu sei que a cadeia tem fim, e essa é a meta a longo prazo. 2012, 13, 14, 15, whatever. Temos meta, e sabemos que existe luz no fim do túnel. Isso segura a sanidade. Por isso estou mais desenvolvida. Só por isso e por tudo isso.

Muita coisa para fazer em 2012. A verdade é que por mais que eu cuide para que os freelas que eu faço tenham uma base forte e estrutura para ir desenvolvendo eles em cima disso, como eles vão surgindo por geração espontânea e eu nunca sei, a gente vai desenvolvendo as gambiarras e sonhando que em épocas melhores a gente vá dar um jeito em tudo. Comprar um estabilizador bom... Em sonhos mais ousados, a gente pensa numa kitnet sem pais e irmãos, num estúdio em que eu possa curtir a minha entrega ao maravilhoso mundo do audiovisual. Em visões lúdicas, a gente se imagina rico, com um escritório bem ventilado, naturalmente iluminado de dia e por luzes indiretas à noite, com uma poltrona cheirando a couro com conforto de primeira classe desenhada especialmente para você por algum designer italiano, móveis rústicos e pesados que não saem do lugar, armários que não desmontam, cheiro de madeira de verdade, livros-referência nas estantes bem organizados e facilmente identificáveis, fios bem resolvidos, um banheiro próximo e sempre limpo e inodoro e paredes e janelas à prova de mundo. Uma secretária digna de Tony Stark (a Gwineth Paltrow, do Iron Man) que atende aos telefonemas cujos toques nunca vão vazar para o seu bat-homeoffice. Ela que cuida das contas, dos documentos, das falhas técnicas, e ela te ama e vai ser fiel à você para o resto da vida porque um dia no passado você salvou a vida dela.

É bom sonhar.


A vida é no mínimo engraçada.


Mas quais são as minhas resoluções de ano novo?

O óbvio. Melhorar. Ser mais inteligente. Conseguir mais eficiência, errar menos ou nada (porque não?). Conseguir o que eu quero. Se tivesse um manual...

A minha teoria continua sendo tentar o seu máximo mantendo a sua estrutura para durar a longo prazo. Esforço é necessário. Mas no lugar, tempo, espaço, com as pessoas certas. Mas diferentemente da escola, tem coisas que são muito difíceis de saber. Vide a metáfora da minha vida: o meu home office e minha auto-sabotagem. É tudo muito mais complexo. Ou eu que fico tentando achar a pegadinha nos testes da minha vida? É sempre assim, a gente não acredita nas questões fáceis e acaba ticando a resposta que deve ser a pegadinha, quando na verdade a questão estava simplesmente mal redigida, e quem pensou menos acertou na vida matrix.

Suspiro.

A verdade é que existe sim uma matemática exata na dinâmica esforço-recompensa. Quando a gente tem a humildade de se colocar junto à massa, nos 85% dos casos, é óbvio que eu vou ter que continuar batalhando para alcançar os meus sonhos, vou ter que derramar suor, sangue, abdicar tempo e abrir mão de coisas que seriam divertidas de fazer hoje, porque isso tudo vai diminuir as minhas chances de fracasso total em realizar os meus sonhos. Só que de vez em quando eu tenho que me lembrar que tenho que estar preparada para a possibilidade de fracasso. E eu tenho que saber que vou ter que carregar a minha sacolinha de fracassos para o resto da jornada. E essa memória não vai me impedir de ter uma vida boa, mas vai ser uma lembrança triste.

Fui criada numa sociedade fechada em que convivi com o processo e o resultado de muito sacrifício. Amigos e familiares próximos viveram isso junto comigo, fomos criados em paralelo, e anualmente vemos os resultados do que se deu. Como a maioria das pessoas do mundo, temos algum orgulho do que viramos, o alter ego está lá. Sucesso e dor. Vejo pais pagando um preço alto pelo sacrifício que fizeram por seus filhos, especialmente no que concerne a educação. Podem falar o que quiserem, mas no meu mundo, a boa educação tem o seu preço. E esse preço está diretamente relacionado à dinheiro. E dinheiro define a sua vida, o seu cotidiano, o seu tempo disponível para as coisas da vida. Nós, como filhos, críticos e mentalmente (ou economicamente) independentes, agradecemos e guardamos mágoas. Depois do nascimento do meu sobrinho e dos filhos das minhas primas (tenho uma família enorme com mulheres hiperférteis. Todo ano a família se multiplica.), comecei a testemunhar de perto como a criação e educação define e influencia esses mini-seres em desenvolvimento. Algumas coisas da vida ficam mais claras.

Uma característica geral dos coreanos é sacrificarem suas vidas para oferecerem boas escolas, cursos, viagens aos filhos. O melhor nível acadêmico possível. Quando eu era mais nova, eles esperavam segurança financeira em troca. Matematicamente a equação fazia sentido, porque eles tentaram transpor uma matemática asiática para o país para o qual imigraram. Eu vejo isso muito com mulheres, amigas minhas também descendentes de coreanos. As mais ‘educadas’ são as mais críticas. São as mais solteiras. São as mais mal amadas por homens. São as que carregam o fardo dos problemas dos pais e dos irmãos. São as mais racionais. São as com pensamento mais independente. Têm que ser tudo, e a gente está muito cansada, mas a gente está vivendo bem. As menos ‘educadas’ (academicamente) estão fazendo o papel que esperavam que a gente fizesse: casaram, têm filhos, cuidam das lojas. Também fazem demais.

Eu fico pensando se é esse resultado mesmo que os pais esperavam. A gente diz que não depende disso, mas com certeza em algum ponto, talvez com menos intensidade que as pessoas menos críticas, mas em algum ponto e em algum momento da vida, queremos dar orgulho aos nossos pais. Sabemos que a vida não depende disso, mas há momentos em que gostaríamos de ser reconhecidos por eles. Vejo as minhas amigas que conheço desde o fim da infância e início da adolescência, que é quando os conflitos eu X meus pais surgem, e vejo que na verdade, parecia que eles queriam que a gente fosse boas esposas, fôssemos mais submissas e apenas inteligentes para achar caras legais para nós, mas ainda não vejo isso se concretizar. Ficou uma falha, um buraco nesse jogo de sacrifícios, em que vimos relacionamentos entre homens e mulheres se dissolverem em nome da educação e formação acadêmica das filhas. No final, a gente está imensamente sobrecarregada com os problemas desenvolvidos no relacionamento de nossos pais no decorrer dessas três décadas e a gente se auto sabota.

Estamos tentando construir algo criativo numa coisa que a gente não teve, não viu. A gente sabe o que a gente não quer que vire, mas a fórmula de como fazer para chegar num relacionamento bem fundamentado não tem base cultural. É tudo novo. Queremos ser melhores, já vimos e convivemos com muitas culturas diferentes, mas o fardo familiar que carregamos é incompreensível para as pessoas ‘normais’.

Eita, 2012.

Muito trabalho.

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