Sunday, January 08, 2012

Memórias

Eu sou completamente fascinada em registrar todos os lugares por que eu passo.

É uma necessidade. Saul Steinberg, o cartunista famoso por suas tiras no The New Yorker, dizia que:

“Desenhar é como escrever. Eu desenho para explicar coisas para mim mesmo.”

Eu acho que eu fotografo para explicar coisas para mim mesma. Eu não sou fotógrafa, não tenho ambição em expor nem nada, é um hobby que eu posto às vezes no blog e no flicker mas que eu não quero profissionalizar. Um hobby que tem que ficar como hobby, não pode virar trabalho. Não estou aberta para isso, então nem ligo tanto que as outras pessoas não vejam o que eu vejo nas fotos que eu tiro.

É engraçado porque a vida passa, e ficam na minha memória imagens selecionadas pelas fotos que eu tirei. Quando eu estou com a minha câmera e registro o mundo com ela, pode não ter acontecido nada de especial, mas como eu saio exatamente com essa lição de casa, a de observar o mundo, eu lembro DE TUDO quando eu vejo uma foto que eu tirei, especialmente se eu estava sozinha. Eu lembro como a sombra batia no rosto da menina que estava sentada ao lado de uma janela numa galeria em Seul e os movimentos dela enquanto eu esperava um momento legal para clicar. Mas eu esqueço quando não vejo a foto. Como revejo de quando em quando, no momento que revejo que me vem a memória do episódio inteiro e do meu contexto de vida naqueles dias. Doido, né? Acho que nasci para ser voyeur. Eu não deveria ser material.

Pensando assim, é compreensível que as pessoas tirem fotos juntas de turmas de escola, viagens, aqueles retratos de família, etc. Mas aí é que aparece a diferença entre as pessoas. Provavelmente as pessoas registram o que elas querem lembrar, o que é importante para a memória delas. A maioria das pessoas quer lembrar dos momentos com os amigos, com a família. Eu quero lembrar das pessoas que eu não conheci, dos estranhos da rua, dos lugares vazios, das minhas sensações de frio, calor, solidão, fome, satisfação, cansaço, alegria... Que bom que tem gente como eu, senão coitadinhos dos lugares vazios, né? Não seria justo com eles, por isso que eu estou aqui. :)

Lembro de um bimestre na sexta série de Educação Artística em que a gente tinha que fazer desenho de observação de uma imagem que a gente escolhesse de revista. Eu peguei a seqüência das propagandas da Parmalat, das criancinhas vestidas de mamíferos. Lembro que no fim de semana antes da prova bimestral peguei algumas fotos e fiz desenho de observação um ou dois bebês. Aí quando me deram a prova eu escolhi um dos que eu tinha gostado mais de desenhar e passei para o papel, de memória. O que eu mais lembro foi a parte mais sofrida do desenho, que era a sombra do nariz. Qualquer errinho mais para lá ou mais para cá na sombra e o nariz entortava... Não lembro qual era a proposta, não era para fazer desenho de observação porque obviamente não podia levar nada para a prova como cola, mas lembro de ter desenhado o bebê da vaquinha. Lembro da professora, ao entregar a prova para mim, me perguntar como eu tinha feito aquilo, aí eu expliquei que no fim de semana anterior tinha feito o exercício de observação, por isso lembrei de como ele era na prova. Ela disse:

“Meu Deus! Você tem uma memória visual excepcional.Trabalhe isso.”

Aquilo ficou no meu registro. Eu gostava de fazer aquilo, então absorvi o que eu até hoje vejo como um elogio. Eu tenho memória! Yes!

Não sei por que eu tenho alguma coisa que faz eu ficar olhando as sombras das imagens, principalmente quando se trata de pessoas. Tem uma coisa não linear nos rostos e corpos dos seres humanos que me fascina. Os detalhes. Na verdade, não existem linhas na natureza, é tudo uma questão de luz e sombra. As cores confundem as pessoas, que acham que estão vendo linhas, mas elas não estão, elas só estão vendo cores, luz e sombra. Elas acham que entre uma cor e outra tem uma linha, mas essa linha não existe. De vez em quando é uma sombra fina. Que vem antes e entre o contato dos objetos.

Desde pequena eu tenho mania de olhar coisas igual a uma retardada e ficar seguindo os detalhes das sombras que as coisas fazem nos lugares. Não sei por que faço isso, só sei que me ajuda a parar de pensar, é meio que uma questão de sobrevivência para minha cabeça não me deixar louca. É um momento em que eu não penso em nada, só acompanho a sombra. Aí eu fico olhando sem objetivo nenhum para uma imagem ou um detalhe de uma imagem que eu acho legal e nunca mais esqueço. Imagem é uma coisa doida. Fico imaginando como fica a percepção de mundo de uma pessoa que não vê. Deve ser uma existência completamente diferente, não é a toa que tantos cegos se envolvem com os sons, com a música. Fica um buraco imenso se sua memória não tem imagens. Eles devem ter algo parecido com isso, as pessoas que nasceram já cegas.

Estou aproveitando meus tempos de descanso (‘livres’) para tentar fazer pastas com meus registros fotográficos, parte deles em CD, parte em papel fotográfico, parte no computador, parte num HD externo... E passei umas duas horas hoje revendo fotos dos últimos anos.

Entendo porque para mim tudo isso é uma questão de sobrevivência. Não sei se as outras pessoas são como eu, mas eu tenho uma facilidade enorme de esquecer das coisas pelas quais passei se não tiver um estimulante para me lembrar (nesse caso, as fotos). Eu acho que meu cérebro se programou, em algum momento da minha vida (ou eu programei ele) para esquecer do meu passado, meio que como um mecanismo de defesa. Eu devo ter feito isso uma vez com algum esforço, aí meio que fora de controle ele passou a sempre fazer isso. Aí fotografando, eu consigo selecionar a minha vida passada, desenhá-la como eu gostaria que ela tivesse sido, e concentrar a energia da memória nas coisas que me pareceram boas e calmas. Eu devia estar sabendo disso quando fotografei detalhes das ruas próximas dos lugares em que morei, cenas do dia-a-dia, as janelas, os apartamentos vazios logo que entrei neles, as minhas gambiarras de estudante pobre (dá um orgulho, eheh)... E revendo essas imagens, eu relembro nos meus sentimentos, das emoções, do que eu estava passando na época, dos lugares em que eu gostava de ir, minhas fotos e meu passado estão cheios de VIDA. Isso me dá uma calma, é um consolo imenso.

Vendo as fotos da Coréia, principalmente, lembrei de como eu usava os fins de semana para WANDER nos lugares sem objetivo nenhum com a minha câmera, ou levava meu computador para escrever em uns cafés específicos que tiravam um expresso mais forte. Onde eu sentava, o que eu olhava, a tomada que eu usava, o expresso con panna que eu pedia e as longas horas que eu passava lá, escrevendo, descansando e olhando, lendo... Era tudo tão calmo. Tão calmo...

Realmente, viver sozinha me resolve. É incrível como as pessoas são ruídos. Relacionamentos são uma ameaça à existência, quando você não tem a chance de escolher com quem você quer dividir o seu tempo e não negocia o horário.

Na minha idade, quando se mora sozinha, a existência é inegavelmente mais fácil. Pelo menos seria para mim, que sou assim, meio voyeur.

Preciso voltar a desenhar. Tomara que eu consiga. Em São Paulo, eu fico muito em casa e perto da minha casa, achando que estou economizando tempo. Lembrei vendo nas fotos que na Coréia eu fugia para lugares não necessariamente perto. O foda de São Paulo é que não tem tanto lugar que valoriza a sua privacidade. As pessoas saem de casa para encontrar outras pessoas. Na Coréia, MUITAS pessoas saem de casa para sentar num café, num parque, num museu... sozinhas. Nisso, Seul é uma cidade que me entende melhor. Preciso dar uma estudada em São Paulo e arredores para achar os meus refúgios.

Legal. A Pentax novamente me salvando.

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